He.te.ro.nor.ma.ti.vi.da.de.
É isso mesmo! Esse palavrão todinho!
Hoje em dia sei que é ele que define a agonia que se instalou aqui dentro do peito [e passou um bom tempo espetando e incomodando] quando “meu mundo caiu” e me descobri gay [continuo não gostando da palavra "lésbica"].
O foda é que na época não sabia e.. pera, melhor explicar primeiro o que significa né?
Bom, heteronormatividade é essa idéia, esse sentimento, essa concordância muda de que “sexo físico, identidade de gênero e papel social de gênero deveriam enquadrar qualquer pessoa dentro de normas integralmente masculinas ou femininas” [1].
Ou seja, seres biologicamente masculinos, que se identificam como sendo seres masculinos e desempenham papéis sociais designado aos homens e mulheres biologicamente femininas, que se identificam como seres femininos e desempenham papéis sociais designados para mulheres.
É um padrão hétero, esperado e tido como normal a ser seguido.
Resumindo grosseiramente: O carinha vai crescer, comer toda gatinha que ele puder durante a adolescencia, aí casa, tem filhos e continua dando as escapulidinhas ocasionais. A mocinha vai crescer, se comportar, casar [virgem?] ter filhos e passar a cuidar do bem-estar do lar, das crianças e do marido [enquanto finge que não vê sinais de atividades catraiais].
Então, como eu ia dizendo, na época eu não sabia que não era o fato de ter que reaprender tudo o que eu já sabia sobre sexo [o quê encaixa aonde hoho], mas sim toda a súbita inexistência de futuro que eu tinha pela frente. Queria mesmo casar e ter filhos e e e… coisas que gente homo não faz [afinal, são irresponsáveis e promíscuos].
Engano total.
O tempo passou, li muito [chorei um bocado] e entendi um pedacinho mais do mundo.
Vi que podia sim ter filhos, que podia fazer isso ao lado de uma companheira e ter a vida que projetei para mim! Viva!!! \o/
É claro que muitas questões ainda pesam sobre meu juízo.. questões legais envolvendo filhos que terão duas mães, como fazer para contornar questões psicológicas que a criança pode enfrentar, como lidar com o ambiente escolar e esse tipo de coisa.
Mas o que importa mesmo [e o que queria dizer nesse post] é que nesse caminho todo tenho notado dois fatos:
1. Parte da comunidade gay abomina por completo qualquer comportamento que identifiquem como sendo hétero. É uma reação extremamente forte em busca de uma identidade de comportamento próprio ao grupo [e que já é trabalhada em algumas questões como estética, vocabulário específico, ídolos, representação na mídia e etc]. Infelizmente isso resulta em um outro extremo: preconceito contra héteros.
2. A própria comunidade hétero sofre com a heteronormatividade e talvez nem perceba de forma tão acentuada quanto nós. Existem mulheres que querem mesmo é uma carreira de executiva e aprender a manusear a furadeira e homens que se interessam por bordados, costuras e cuidados do lar, sem deixarem de ter a condição sexual que têm.
Quando se trata de papéis dentro do relacionamento é que a vaca vai pro brejo de vez. [mugindo e balançando o chocalho].
Enfim, criamos as regras sociais e agora nos debatemos dentro delas.
Todas as vezes que escuto o “ah! duas mulheres namorando!! e quem será que é o homem da relação?” vejo que não é a forma com que eu me encaixo na minha namorada que incomoda o meio social, mas sim em que papel social vamos nos encaixar. [E não pensem que essa cobrança só vem de fora não viu? Os próprios gays estão entranhados de conflitos e conceitos assim, heteronormativos.]
Hora de criar novos personagens, ídolos e histórias.
Mãos à obra.
[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Heteronormatividade
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